QUASE DE VERDADE
"Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas." - Clarice Lispector
Quinta-feira, Janeiro 04, 2007

O frio congelava a sua retina.
As gotas da chuva pareciam furar seu rosto como agulhas.
O vento gelado soprava em seus ouvidos as lamúrias de seu coração.

Aquela era a primavera mais fria que ele já havia experimentado.
E ele se espantava com o tempo.
Tempo que andava devagar.
Que tomava suas forças.

Ele sabia que aquele clima não podia trazer nada de bom.
E ele percebia que sua espera era em vão.
Ele começou a pensar que nunca mais tocaria o Sol.

Ela dormia.

Terça-feira, Dezembro 19, 2006

Sossega o teu coração.
Deixa a vida acontecer.

Acorda e vem celebrar o novo dia que nasce lá fora.

Um dia chuvoso, é certo.
Mas é mais um dia nas nossas vidas.
Na nossa vida.

Anda!
Vem ver a chuva molhando as vidraças.
As nuvens cobrindo o céu.

Não se importa se eu chorar.
Eu sempre choro quando olho para o céu.

Eu sempre choro quando você está por perto.
Sempre choro quando olho pra você.

Deve ser porque te amo.

Pat - 19/12/2006.

Quinta-feira, Janeiro 12, 2006

A espera me conduz aos dias mais lentos da minha vida, os passos ficam vagorosos, o suor se estende em rio pelas margens do meu corpo, o sol brilha com fraca intensidade, ele demora a chegar até nós, que somos apenas pobres seres vivendo sob sua proteção.
Minha visão demora em formar as imagens, algumas surgem embaçadas, outras apenas rascunhadas e só penso em esboços e nenhuma arte se torna, realmente, uma arte final. Tudo isso porque a espera me consome e adentra meu corpo com uma força que me torna pesado. Sinto meu estômago doer, minhas pernas não querem mais andar, meus braços se arrastam pelas ruas - eu sou um quase nada, mas ainda conservo algo que me mantém. Algo que faz meu ser viver, faz meu fogo arder. O que conservo é a esperança de te ver. Ainda irei te ver.
Verei com meus olhos antes cansados, mas agora iluminados, verei com minha paixão forte, minha presença enfraquecida, porque serei eu e você, seremos apenas um e dois formando mais do que um simples existir.
Esta esperança se espalhará por todo meu corpo, começará pelos olhos, chegará então à alma, afinal são os olhos as janelas da alma. Dali, tomará como um desejo todas as minhas partes, os que antes dormiam agora acordarão felizes e sem sono, despertos e alertas se entregarão à esperança e ao seu alento, com ela comungarão em felicidade pelo que está por vir e pelo que já se tem.
Agradeceremos - eu, meu corpo, minha alma, minhas partes - tudo o que temos, tudo o que seremos e tudo que amaremos.
A gratidão adoçada pela esperança será terna, leve e calma, dará a segurança dos mares caminhantes, que transportam os grandes navios de um continente a outro, dará a segurança do céu vibrante que com seu azul envaidece até o mais simples ser, dará segurança da terra florescente, que verdejante se fará apenas como forma de sorrir para esse amor.
Assim, por mais que a espera seja dolorida e inóspita ao meu coração, ainda assim, a esperança rega-me com delicioso alento.
Meu alento é você, meu amor.

FCV - 07/01/2006.


Domingo, Março 27, 2005

Instante

Ele a beijou
Sob a luz da lua cheia
Seus espíritos se encontraram
E foi um encontro tão intenso
Que eles sentiram seus órgãos parar
Eles não podiam mais respirar
Seus olhos cerraram
Como se eles estivessem mortos
Os lábios ardiam de amor e prazer
As lágrimas escorriam como ácido nos seus rostos
Mas eles não queriam parar
Porque sentiam a saliva um do outro
Nada era mais doce
O toque das línguas
Quase os fizeram desfalecer
As mãos se entrelaçaram
Eles não podiam mais se soltar
Os corpos queimavam
Felizes
Eles choravam
Então eram um só
Um corpo
Uma alma
Um beijo.

Pat - sem lá quando...


Sexta-feira, Julho 30, 2004

A cidade sem nome

A inexprimível facilidade de se concentrar na futilidade é tão inconseqüente que marca convulsivamente todos os desejos soltos de um corpo na calçada. Só que não há corpo. Nem mesmo, há calçada.
Tradições e festejos são esquecidos na irreverência de qualquer normalidade, o balanço do parque está vazio. Peças enferrujadas, tábuas caídas e enterradas no chão, no amontoado de folhas pútridas que se recolhem sobre ela.
A rua não anda sobressaltada pelos paralelepípedos que lhe faltam, não manca, nem titubeia quando aparecem seus buracos e não acha graça por ser tão banguela.
Os postes sem luz servem de guarda-chuva contra os respingos das águas do pequeno rio, escondido ao final da ladeira, revoam num displicente passo de dança até tentar o céu e cair na rua. A desertificação das esquinas não justifica a lama que se forma em pequenas poças. Ali não chove, ali não venta, ali não se anda. Mesmo as pequenas gotas que invadem a rua são queimadas pelo sol sempre presente.
As fachadas gastas, desmaltadas, crescidas e desaprumadas entortam a paisagem que sempre fora reta, esbelta, altiva e inalcançável. Naquelas portas passaram inumeráveis pessoas alegres, afetadas pelos seus afazeres, absorvidas em seus cantos mais escuros ou expostas com violência para os outros.
Passados eram transformados em esperanças de futuros promissores, em anseios de desejos a serem cumpridos, mas logo esquecidos nos jantares deleitosos que se estendiam noite a fora, entre jardins e salas meio iluminadas.
A surpresa de tempos vistosos que não viriam chegou logo aos portões da cidade. Na praça de fronte à Igreja a grama murchou rapidamente, o padre se deslocou para outra paróquia, as portas de tão alta Casa foram fechadas e lacradas por santas e ameaçadoras mãos, fiéis necessitados deixados do lado de fora, na verdade, afastados da luz e escorraçados ao relento. De volta à suas casas, não lhes restavam mais amarras onde se segurar, o que já desandava por forças naturais, por ação do tempo, por motivo de ocorrência normal, agora parecia impulsionado por outras entidades.
O desalento foi geral, as alegrias contadas nas ruas resumiam-se a pequenos causos esquecidos com muita rapidez, crianças não brincavam mais de pique-esconde, pois agora tinham medo dos antigos esconderijos e de prováveis sumiços.
Os comerciantes fechavam suas lojas mais cedo e já não havia mais bêbados circulando pela cidade, alguns poucos moradores creditaram votos de boa confiança a esta situação, a baderna diminuiu e não aconteciam mais roubos, ou qualquer outro tipo de infração na cidade.
Tempos calmos, diziam os mais ou menos novos. Tempos estranhos, diziam os mais velhos.
E assim se estendiam os dias ¿ lamurientos ao sol, escorrendo devagar por entre olhares cansados e tediosos, injustos eram os minutos que tortuosamente se demoravam em longos segundos. Todos os afazeres domésticos eram rotineiramente alongados durante o dia, esticados como elástico, mas com uma lentidão exasperante, as senhoras donas-de-casa sentavam-se às janelas e observavam ao longe, algo que um dia chegaria, talvez alguém para dar um novo alento à cidade. Obviamente, a espera era inútil e mais usada como desculpa pela apatia, do que como real motivo de algum tipo de otimismo que pudesse surgir.
No fundo, entre um momento de vazio no olhar e a volta à realidade, exatamente neste momento as pessoas da cidade já sabiam, como uma sensação premonitória de que tudo se findava, que tudo se esvaia e atingia o seu fim.
E foi essa inexprimível facilidade de se concentrar na futilidade suspirante de uma fantasia longínqua, que deu fim à cidade. Seus poços secaram, suas perfumarias perderam o cheiro, sua comida já não tinha mais gosto, seus sentimentos não se expressavam mais, o que era vivo se tornou fantasmático e de fantasma viveram os últimos diálogos daqueles pobres cidadãos. Os que ainda não haviam abandonado a cidade, em poucos anos morreram.
Diz-se, pelas cidades vizinhas, que tudo ali se matou, que a cidade cometeu suicídio aos poucos. Exagero de uns, verdade para outros, enfim, o que se conta e se ouve ainda nos dias de hoje é que morreram sem saber o porquê e nisso eu acredito.
FCV
30/07/2004

Domingo, Junho 27, 2004

INSANIDADE CORROÍDA

Quero ser a insanidade corroída pela raiva doida da minha ferida. Eu me torno algo repudiado, porque ouso sentir. É, justamente, quando estou vivo, quando me fazem sentir a vida, que exigem que eu me esconda.
Estou cansado de me sufocar, quero bradar, uivar e esbravejar minha solidão. Quero confrontá-la com o que passa em meu coração.

Deixo sair, esforço-me para ao menos ouvir o eco que se forma entre uma veia e outra. A pulsação exala odores de sangue em meu peito. É a vida. Quero me abrir e amanhecer inconformado e insatisfeito, sem entender ninguém, sem ao menos ouvir ninguém. Não desejo mais a esperança radiante de um sorriso, apenas o conforto de braços que me queiram.

Meu céu não está na boca, os dentes são os caninos antigos, que me lembram de algo quase perdido em outras vidas. Um instinto de força e preservação. Eu luto contra quem? Ou contra o quê?

Não luto, deixo que me levem. Carregam-me pelo braço, apoiando meu quadril em suas mãos fortes, erguendo meu corpo como se em sacrifício e prestes a ser jogado na boca do vulcão. Sinto o calor se aproximando e o suor esvaziando meu desejo, escorro em doces gotas pela face.

Sinto-me de gesso, corpo trabalhado em detalhes, entalhado com pequenas ferramentas, sem rugas ou rachaduras, de pele suave e tons claros, pintados por pincéis delicados, contornado em apanhados de sensações escorregadias.

O barulho infernal do silêncio me faz estremecer de dor. Faz com que o meu corpo sangre e escorra pelo chão limpo. Ouço o sangue escorrendo e as gotas caindo. O peito incha e, de repente, o coração pulsa freneticamente. A solidão me cerca. Mostra sua pior face. Transforma-se no desespero insano.

Não há mais espaço. Sinto como se eu nunca tivesse existido. Talvez a minha vida toda tenha sido ilusão. Talvez eu tenha desejado viver. Não há histórias, não há lembranças, as memórias simplesmente não existem. Não existe casa, nem uma cama para eu dormir. Não existe fome, não há comida. Não ouço nada, não sinto nada, não vejo nada. Talvez eu tenha desejado existir. Mas paguei um preço muito caro por sentir. A única certeza é a dor. Meu corpo não existe mais.


Fá e Pat - 25/04/2004.



* imagem tirada do site www.brossa.org *

Terça-feira, Junho 22, 2004

ESPERA

O toque daquelas mãos a fazia estremecer
Aquele sorriso a fazia corar e ela não podia retribuir
Ela percebeu que podia amar de novo
Derramar sobre ele aquela imensurável febre de amor
Porque, de repente, ela percebeu que ele era um ser humano
Ele também errava, ele não era perfeito

Perto dele, todas as suas dúvidas e inseguranças sumiam
Perto dele, seus sonhos se tornavam realidade
Ele era a esperança que ela precisava
Em tudo, desde os menores gestos, ele lhe transmitia paz
Uma paz que ela não tinha sentido antes

Se ela ficasse triste, bastava a lembrança da existência dele
Mesmo que ele não estivesse por perto
E quando ela sentia falta dele, fazia uma oração, em silêncio

Ela já não tinha mais dúvidas
Ela o amava
Aquilo só podia ser amor
O seu amor mais puro

Ela esperaria o tempo que fosse preciso
Mesmo que levasse toda uma vida
Esse era o preço de amar alguém
Ela sabia bem disso

Mas nada a faria desistir
Ela o amava
Como nunca havia amado antes.


Pat - 29/12/02.


Domingo, Junho 13, 2004

PARA SORRIR OU CHORAR

Ela despertou assustada,
como se acabasse de sair de um pesadelo.
Levantou tão rapidamente,
como se o colchão e os lençóis estivessem em brasa.
Ela correu para lavar o rosto,
pois o suor ainda estava quente.
As sandálias continuavam intactas,
os pés tocavam o chão frio,
corriam em busca de ajuda.
A água batia em seu rosto,
que logo esquentava,
tamanho o calor exalado pela sua pele.
A boca estava seca,
mas nem uma pedra de gelo tirada das calotas polares
poderia aliviar tal agonia.
Ela olhou em volta,
não viu ninguém.
Estava sozinha.
"E agora?", pensou.
Pela casa escura ela tateava a parede.
E suas mãos tocaram o metal frio da janela.
Ela abriu o trinco e viu as janelas baterem na parede do lado de fora.
O estrondo se reverteu em um eco,
que entrou pela casa,
junto com o vento da primavera.
Ela colocou todo o colo para fora,
sentiu o vento no rosto.
Talvez assim ela conseguisse respirar.
Mas o vento trouxe aquele perfume
e a imagem se refletiu no céu nublado.
Ela quis cair,
mas sentiu algo segurá-la.
Ainda era a fé,
talvez fosse o amor.
Então as lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto.
E ela chorou sem cessar durante muito tempo.
Horas, dias, talvez semanas,
ela já não contava.
Só queria viver ali novamente,
só queria dormir de novo.
Até que ela percebeu que nunca mais conseguiria dormir.
Estava apaixonada!
Ela sonhara com ele.


Pat - 26/09/2003


Quarta-feira, Maio 26, 2004

QUERO LOGO

Quero logo tudo o que vida tem,
quero logo fugir e me esconder,
sair e viver,
correr e me perder,
quero logo as coisas do mundo,
o mundo sem coisas,
quero logo e bem logo.


Fabio Caim - 26/05/2004



Quinta-feira, Maio 13, 2004

Angústia

Tenho algo para te dizer,
mas não encontro palavras.
Não me peça nada, por favor,
Posso até estragar tudo,
Mesmo sem saber como.
Quero agora o silêncio,
já que não posso ouvir tua voz.
Li o que escrevestes.
Então sei quem tu és,
pois olhei em teus olhos.
E tua face permanece diante de mim.
Tua voz lateja em minha mente.
E tomas conta do meu ser.
Não me dissestes palavras de amor,
não foi preciso!
Tenho-te dentro de mim,
Sinto meu peito apertado.
Sinto uma vontade incontrolável de chorar,
Mas se o fizer, sentirei as lágrimas queimando minha face.
Faço de ti quem mais amo.
Submeto-me aos desejos que fantasio serem os teus.
Amo-te como se não houvesse mais nada.
Mas como?
Nem sei teu nome.
No meio das minhas noites,
Vens até mim.
Sinto-me falecendo
Não consigo te alcançar.
Estás tão longe!
Estás dentro de mim.




Pat.